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O El Niño e os impactos naturais e antropogênicos das mudanças climáticas

Nos últimos anos, as notícias sobre eventos climáticos extremos, como chuvas intensas, enchentes e secas severas, têm se tornado mais comuns em nosso cotidiano. Muitas vezes, de forma sensacionalista, estas notícias buscam atrair mais curtidas e seguidores e são acompanhadas por uma crescente disseminação de (des)informação científica. Isso leva a uma mistura confusa entre as mudanças climáticas naturais e as causadas pelo ser humano, sem aprofundar nas principais razões por trás desses eventos e no que realmente importa: fortalecer nossa resiliência climática.

Anomalia de temperatura superficial do mar (ATSM) para o mês de Setembro de 2023.

Em 2023, o fenômeno El Niño se estabeleceu no Oceano Pacífico em conformidade com as previsões climáticas, sendo classificado ainda como um evento "forte". A mídia atual frequentemente aborda o El Niño no contexto das mudanças climáticas provocadas pelo ser humano, destacando o papel dos gases de efeito estufa no aumento da frequência e intensidade desses eventos climáticos.


Contudo, é importante destacar que o El Niño-Oscilação Sul (ENSO, na sigla em inglês) é parte de um ciclo natural que envolve o aquecimento da superfície do oceano, principalmente no Pacífico tropical central e oriental, causado pela configuração atual dos continentes e o oceano Pacífico sim! No passado distante tanto o nível do mar quanto a posição dos continentes era outra e a dinâmica oceano-atmosfera em um planeta “redondo e que gira” sim! A Terra não é plana! . Durante o El Niño, os ventos alísios que normalmente sopram de leste para oeste enfraquecem ou até mudam de direção soprando de oeste para leste. É importante ressaltar que o El Niño ocorre de forma semi-irregular, em ciclos de 2 até 10 anos e cada evento é de certa forma único. Ainda assim, é possível identificá-lo em uma série temporal através da anomalia de temperatura da superfície do mar


Modelo conceitual dos impactos que o El Niño normalmente causa na América do Sul. Adaptado do IPCC AR6, capítulo 12.

Isso não significa que o El Niño não esteja relacionado às mudanças climáticas. Pelo contrário, a condição do El Niño pode até mesmo ser acionada e agravar-se devido às atuais mudanças climáticas, tornando seus efeitos, como chuvas intensas ou secas extremas, mais severos. As atividades humanas, em particular o aquecimento global causado pelo aumento dos gases de efeito estufa, podem potencializar tanto esses eventos quanto seus gatilhos.


Quando vemos manchetes sobre chuvas recordes ou cheias históricas, muitas vezes é errôneo pensar que esses extremos são eventos que nunca ocorreram antes. Na verdade, quanto mais recuamos no tempo, mais evidente fica o papel da variabilidade de baixa frequência nesses eventos, que carregam uma enorme quantidade de energia no sistema oceano-atmosfera.


Uma maneira de entender a importância dessas frequências mais baixas é combinar observações atuais com indicadores paleoclimáticos, conhecidos como paleoproxies. Esses proxies fornecem informações sobre o clima passado da Terra com base em evidências naturais, como sedimentos oceânicos, núcleos de gelo, anéis de árvores, corais e depósitos de lagos. É comum ainda que o termo paleo seja remetido a um período de tempo onde a sociedade industrializada atual não estava estabelecida. Cada tipo de paleo proxy oferece informações específicas sobre o clima ou as condições ambientais do passado e, quando validados com dados atuais, podem fornecer insights sobre a intensidade desses eventos no passado.

Anomalia da precipitação (em mm/dia) para o mês de Setembro de 2023.

Um recente estudo liderado por Georgina Falster, publicado na prestigiosa revista Nature, reconstruiu a Circulação de Walker do Pacífico nos últimos 1000 anos, que é o padrão de ventos no Oceano Pacífico Equatorial e está intimamente relacionado ao gatilho da condição de El Niño. Essa reconstrução, baseada em diferentes indicadores paleoclimáticos não são simulações de computador! sugere que as anomalias atuais não são sem precedentes e que a longa duração do fenômeno La Niña, antes do El Niño atual, pode ser resultado do impacto das atividades humanas, como a emissão de gases de efeito estufa, somada à variabilidade natural de baixa frequência, com ciclos anteriores ao estabelecimento da Era Industrial. Este desequilíbrio no sistema oceano-atmosfera, onde o balanço entre os modos forte e fraco da Circulação de Walker se acentua devido ao aquecimento causado pelas atividades humanas, pode causar eventos extremos como os fortes El Niño que observamos.


E por que isso é importante para nós? Como uma gangorra, onde o balanço entre o modo forte e fraco da Circulação de Walker é cada vez mais influenciado pelas preocupantes condições de aquecimento da atmosfera e dos oceanos resultantes das atividades humanas, o efeito pode ser devastador em condições extremas. Essa é uma questão de grande importância, pois a energia associada às frequências mais baixas na variabilidade climática, conjuntamente com a influência antropogênica atual pode provocar mais eventos de El Niño. Além disso, a análise de proxies do passado indica que erupções vulcânicas naturais desencadeiam um enfraquecimento da circulação de Walker semelhante ao El Niño, um fenômeno confirmado também por pesquisas utilizando simulações de computador. Basta apenas alguns poucos eventos naturais (erupções vulcânicas, por exemplo) conjuntamente com um oceano e atmosfera mais quente (de origem antropogênica) e teremos um enorme problema climático nas mãos.


Uma análise do tipo Wavelet sobre os dados de Falster et al. (2023) mostrando que, embora o sinal do El Niño esteja mais forte em nosso presente “industrial”, há um sinal de baixa frequência bastante claro na série temporal. Os dados originais podem ser obtidos diretamente no material suplementar do artigo publicado.

Concluindo, a interação entre eventos naturais e influências antropogênicas pode ter efeitos desastrosos em várias regiões do Brasil. Isso torna urgente a necessidade de planos de ação emergenciais, investimentos em ciência e pesquisa e a criação de políticas públicas voltadas para o fortalecimento da nossa resiliência climática, visando proteger nossos recursos naturais, nossa produção agrícola e nossa sociedade.


Para saber mais:


Falster, Georgina, et al. "Forced changes in the Pacific Walker circulation over the past millennium." Nature (2023): 1-8.

IPCC Assessment Report 6 (AR6) Impacts, Adaptation and Vulnerability. Chapter 12: Central and South America https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg2/chapter/chapter-12/


Andre Belém é Oceanólogo, com mestrado em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), e concluiu seu doutorado em Oceanografia Polar no Alfred-Wegener Institute, na Alemanha, em 2002. Com ampla experiência em expedições científicas de diferentes nacionalidades, tanto em mares tropicais quanto polares, seu trabalho abrange mudanças climáticas, paleoclimatologia, oceanografia física e eventos extremos. Atualmente, é professor na Universidade Federal Fluminense, pesquisador PQ-2 do CNPq, e também atua como revisor em diversas revistas científicas.


Todas as figuras foram produzidas em python e pygmt e os bancos de dados usados são 100% públicos.


O texto reflete a visão do autor e não necessariamente a da Meteonorte.

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